Ressonância emocional

Passei, há tempos umas horas por semana num hospital como voluntária. O meu desafio, foi saber, exatamente o que trazia, afinal na mão, caso algum doente, me perguntasse, houve coisas que aprendi a olhar e houve coisas que me proíbi de olhar. Empenhei-me em distrair a dor. Quando se está doente, a nossa vida é um barco que outros governam,contém mistérios que não se compreendem, mistérios esses, que incluem o de saber quando deixamos de ser nós próprios. De repente, as coisas que fazem a nossa vida ficam ténues, improváveis, mal estamos com as pessoas que devíamos amar. A experiência da dor separa-nos de tudo, vim a saber.

Muitas vezes mudando  de voz na mesma frase, ou na mesma voz, recusei a lágrima que me atravessou o nariz, do olho, de cima para baixo,porque esta dor não era a mim que pisava. Ouvi as histórias que chamam à doença e ao sofrimento mentira,  e ainda hoje com a distância dos dias sei que nada é suficiente para lidar com isto ,mas ninguém desiste de nada. A vida não é uma tarefa que se possa delegar. Compus a roupa, aconcheguei do frio, falei da falta que faz o bule de faiança. Depois, abri páginas e mapas para o nosso diálogo na hipótese de se ir parar à família, aos pais, aos manos, aos filhos a Paris, a África ou a Bruxelas ou a tudo o resto que existe e passa pela memória, quando se investiga a vertigem da vida.

Apertam-se as feridas, as minhas também. Esquecem-se os trambolhos que não deixam andar. Atravessa-se a febre. O arabesco dos tubos, desloca-se para cima das portas, e eu, qual aprendiz de timoneiro imagino-me a proteger todos aqueles, que na vida foram capaz de dar um passo à frente na coragem que é preciso ter para transcender as limitações do sofrimento.

Como num romance, aqui é o único sítio, onde posso poisar os búzios que trouxe porque só estes se preocupam com as ondas, sentir ao longe a agitação das avencas e avistar um pássaro saltitando em seixos junto ao rio sem nunca se molhar. O que mais me alerta é a respiração,mas a morte nunca me ocorre. O mais difícil é acabar.

Deixe o seu Comentário

Instagram has returned invalid data.