“Parasitas”, um lugar da memória

Nesta manhã que já vai alta o silêncio cobre tudo e amassou o Sol, a cidade é um caminho limpo como poucos, certinho, sem gentes nem carros a paisagem é nítida, tudo está sereno. Disponho do meu tempo elego dois ou três livros e uns filmes que resistiram á passagem do tempo. O que  leva  “Parasitas” a ser um filme que se supera é, o facto de Bom joo-ho retrarar com requinte estético e esmero narrativo a luta de classes, como uma trágico comédia concedendo ao heroísmo comunista dos regimes totalitários a margem de humor capaz de nos arrancar umas gargalhadas em momentos de sangue e de morte. O poder e a riqueza de hoje deram ao mundo uma desigualdade diferente da desigualdade vivida e retratada no século XIX e da dobra para o século XX. Nas sociedades Ocidentalizadas, a luta dos falhados e dos excluídos está longe da memória colectiva, em muitos dos milionários e multimilionários está gente que foi capaz de se tornar o agente transformador da sua vida independentemente, da sua raça ou religião, e que foram capazes igualmente de ascender socialmente.

Hoje, os pobres foram normalizados pelo consumo, pela tecnologia, pelo acesso fácil ao entretenimento, pela opinião, pelo conhecimento que adquiriram mas, a raiva mais ou menos contida nas sociedades em que o autoritarismo cresce e as desigualdades aumentam continua a ser vivida. A deficiência de vida e a privação é representa neste filme pela família Kim, uma família de desempregados que habita um apartamento sórdido invadido por baratas. Temporariamente, de forma desenrascada e improvisada os vários membros deste clã conseguem infiltrar-se no mundo de uma família abastada, narcisista e pouco unida, prestando-lhes vários serviços.

Contudo, como dizia Scott Fitgerald ; “ Rich are different”, os ricos são diferentes, mesmo alguns ricos muito infelizes que nos deram os seus romances, por isso os pobres que permanecem marginais não mudam de linguagem, de voz , de educação, nem mudam de aparência por mudar de traje, de repente. No fim, apesar  de todos os planos e estratagemas a família Kim continua pobre e acostumada a essa pobreza á tragédia e á  podridão instantânea de todas as coisas em seu redor. Pobreza e riqueza são indissociáveis nas sociedades modernas, como é o caso da Coreia do Sul .

A atenção vigilante de Boom Joo-ho deu-nos uma sátira social da Coreia do Sul de grande consistência e originalidade com elementos de suspense e horror completamente imprevisíveis. Parasitas é um filme que se mantem fiel á vida, a vida ácida e genial.

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