Os dias que vêm

Portugal, país generoso em beleza. País inconclusivo, desenrascado, improvisado, com lugares em que tudo ainda prevalece provinciano desde a musica á decoração. País feito de um povo que é uma mistura de escassez e de prodigalidade, de muitas tristezas sem vestígios de nobreza, de gente que torna a conversa muitas das vezes atropelada, insubordinada e até caótica, na infinita e pacata desordem da sua existência, foi chamado a lutar contra um inimigo invisível, sabendo agora que teremos de nos reconstruir sobre o que ficou arruinado. Somos um povo que pulsa de medo e de desejo como qualquer ser humano mas, sem rasgos de narcisismo heroico os portugueses têm sido um motivo de orgulho.

 Tal como os grandes estadistas, cada um desenha a  sua batalha e comanda a logística e, é isto que nós  faz ser bravos  no momento.  Os portugueses não têm  olhado  para este tempo de horas mais opacas como um congelamento adverso da vida, enumerando simplesmente o que estamos a perder. Fomos  rápidos a fechar escolas, a fechar fronteiras, a fechar lojas em centros comerciais e a encerrar o atendimento dos serviços públicos. A limitar a circulação de pessoas, a aderir ao teletrabalho, para que no final a virtude comunitária seja um facto.

Nos momentos de crise as mentes mudam rapidamente. Na emergência, a confiança, a amizade, e a entreajuda surgem subitamente contribuindo para o espírito de cooperação e confiança global, importamo-nos mais com o futuro da humanidade e vemo-nos  mais através  dele. Exemplo disso são os cuidadores que têm estado na frente desta guerra a combater por nós, os que nos fornecem os bens indispensáveis, os médicos, os enfermeiros, os investigadores que procuram sem descanso o conhecimento sobre esta epidemia. Aqueles  que foram os primeiros a adaptarem -se a uma economia de guerra produzindo o que mais falta faz nas linhas de produção cruciais e  quem tem vigiado a desordem e comandado a ordem.

Diz-se que habitaremos um mundo diferente, as decisões que os governos tomarem nos próximos tempos vão alterar as nações durante anos, na saúde na política, na economia. Na certeza de que a incompetência é inegociável e não há uma próxima vez, é preciso corrigir os erros e optimizar as  funções para que não se espalhe mais a morte onde antes havia vida.

 Sou de uma geração de privilegiados que viveu o período de ouro desde 1945 até 2020, nunca precisamos de convocar a coragem, vivemos sem guerras, pandemias, ameaças políticas ou naturais. Porém, há sempre um intervalo entre o que imaginamos supomos ou espermos que a vida seja ou venha a ser e aquilo em que realmente se torna é, este o traço de ironia que faz com que, por agora os sonhos e as alegrias sejam só razoáveis.  O que estamos a viver agora prova que o mundo já é global há muito tempo, mais tempo do que julgávamos saber. E é só este.

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