O furor dos Trópicos

No primeiro dia de Janeiro, Bolsonaro anunciou a libertação do Brasil dos valores invertidos e prometeu ao seu país o lugar que este merece no mundo, foi disruptor, desafiou e fez a diferença, em relação a qualquer outro discurso presidencial anterior. Comunicar é uma arte visual, uma força estranha magnética e criativa que Bolsonaro foi capaz de se apropriar dirigindo-se ao povo brasileiro na sua linguagem violenta e brutal. É um admirador acérrimo da ditadura, de há 40 ou 50 anos atrás que, já esvaziada se pode voltar a encher pela sua grossa ambição.

Para um  povo desgastado há muito pela insegurança, pela crise económica e pelo fracasso dos anteriores governos socialistas, Bolsonaro foi desejado primeiro e depois festejado como um “mito”. Ansiosos por acreditarem nas elevadas pretensões de um salvador, o povo brasilero ignorou ou sublimou as visões homofóbicas e as soluções violentas deste presidente acolhendo de braços abertos o discurso nacionalista e as decisões populistas próprias do afago das suas baixas emoções.

O Brasil maior do que um país, pela imponência da natureza, pela grandeza arquitectónica e pela gente, parece uma espécie de continente que, alberga um povo branco, negro e indígena distribuído por uma população rural e uma população urbana que tem vindo a crescer pela urbanização industrialização e mecanização agrícola. Há o Brasil da mobilidade de religiões e do sincretismo que resulta numa relação amigável entre budistas, hindus cristãos, protestantes, mórmons e espíritas. Há um Brasil onde existe uma elite milionária e uma elite instruída que coabita as dois passos daqueles que estão uns palmos abaixo a viverem do negócio paralelo, do negócio improvável, há anos à margem das condições mínimas de subsistência, subjugados ao determinismo das suas condições, mas com uma férrea determinação em sobreviver. Gente simples, discreta, invisível. Sem história. E há, para nós Portugueses, um Brasil reconhecível como nossos “ irmãos”, por ser um lugar onde estivemos, e onde ainda existe a proximidade pós -imperial, um país que se reconhece nos nossos poetas, que se vive na nossa linguagem.

Mas, Bolsonaro tudo indica, vai falhar a contabilização da soma das imperfeições do seu povo, das suas idiossincrasias. Desprevenido da duvida, não vai criar políticas que possam discernir desvios e encruzilhadas, que longe das histórias de corrupção e do viés político que chumbaram o governo anterior, não toquem os extremos e que assim o odio não se espalhe pela multidão. De forma ” racional “ todos os brasileiros anseiam pela ausência da descriminação que resulte no equilíbrio de oportunidades em que as gerações mais jovens podem frequentar boas escolas que os preparam para o mercado de trabalho, e que constituam pelo mérito, bons empregos para sustentarem dignamente as suas famílias, contando para isso com o acesso à educação, à saúde e a todas as infraestrururas, e que principalmente, tenham a liberdade de viver sem serem assombrados pelo crime.

O que os brasileiros não gostariam de ver neste novo trajeto político é a imposição de uma ideologia e de uma cultura anacrónicas apoiadas no determinismo biológico e social e apoiada num conjunto de instruções socialmente construídas. Dizer que uma democracia, só demora alguns dias a desmoronar-se e pode demorar séculos a ser construída é a primeira lição a aprender quando se trata de defender o estado de direito, e as liberdades individuais. Bolsonaro, supostamente conhecedor da causa e da coisa política, irá conseguir surpreeder quem o despreza e promover a meritocracia a propriedade privada e a competição, à semelhança do modelo democrático das sociedades Ocidentais liberais, ao mesmo tempo que flexibiliza o porte de armas e conduz medidas de segurança apertadas na população, é esta a duvida. Este impulso de crescimento e desenvolvimento económico que Bolsonaro pede aos brasileiros, próprio das sociedades que acreditam que a soma das muitsas ambições individuais, são transformadas numa evolução generalizada e equilibrada desses países, pode estar na raiz comprometido pelas características do regime desta presidência.

O Brasil é, e será sempre um país que alberga excessos, mas um regime autoritário vai ter a tendência de estagnar o seu próprio crescimento, vai ter a tendência de repetir erros do passado recente, e de revelar os medos que o excesso de conservadorismo e a sede do um poder centralizado podem trazer “envelhecendo” em pouco tempo os seus lideres. O brasileiro é um povo que move os quadris num “ doce balanço” , que procura a perfeição através da sua simplicidade, oiçam-se quatro ou cinco minutos das suas conversas e das suas melodias e sente-se a promessa de uma infinidade de paixões que aí estão contidas como uma multidão num pequeno espaço. Os Brasileiros são gente assim e cada nação” é todo o mundo a sós” como disse Pessoa na Mensagem.

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