Corazón

O que quero saber da Catarina não cabe aqui: quero saber como é que numa vida normal cabe tanta ambição sem deixar, de parecer qualquer coisa de doméstico, de habitual e repousante . Quero saber, como fazer de todo o conhecimento e de todo o mundo que já se viveu uma povoação ou uma rua que o pensamento corre num segundo no rasto das coisas e dos nomes dos que mais se gosta. Quero saber, como se possuí a infindável beleza que vem da alegria e do êxito, mesmo quando se está a sós com a alma. Quero saber, como uma mulher capaz e inteligente abraça todos os deveres da vida para explorar as capacidades que até aí não sabia que tinha, sem nunca sentir pena de si própria , ou perguntar onde está a vida que levou, porque todos os sítios a atraem.

Quero saber, como é viver todos os dias um amor impávido, aquele amor que não falece quando se instala o silêncio porque todas as palavras não ditas são perfeitamente entendidas por ambas as partes e compreender ao mesmo tempo, que o amor que toca o sentido prático, é para mais tarde quando o coração arrefece. Os amantes experimentam-se, querem sentir a intensidade e o olhar sobre tudo, o acelerar da vida, a prosa alegre, a complexidade, a seriedade calma e o anseio ardente. Trata-se de uma mulher de pensamento direito, instruída e culta que sabe apreciar a matriz da perfeição numa casa,os pormenores , o fundo da decoração, a sala iluminada, a cortina corrida, a jarra das flores, a casa arrumada.

Quero saber como é ver as marés a subirem e a recuarem, a espuma a borbulhar na praia, ao fundo as ondas grandes talvez, e achar consolação nessa alusão à vastidão que faz antever os anos que se prolongam à nossa frente cheios de acontecimentos entusiasmantes e de desaforo impudico, porque aqueles que amam a vida não sabem separar-se dela.

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